Que a nossa sociedade nacional (ou até mesmo global, porquê não?) passa por uma crise de valores, de referenciais, isso já é evidente. Só que estamos cada vez mais chegando a níveis preocupantes no Brasil.
Antes mesmo de ter estreiado nos cinemas, o filme Tropa de Elite já estava sendo vendido por aí, em vários camelôs das grandes metrópoles brasileiras, ou mesmo sendo distribuído em várias redes de compartilhamento de arquivos pela Internet, embora o diretor do filme afirme que esta versão é uma versão não completa do filme, que ainda passaria por algumas edições. Seja a versão verdadeira ou não, um fato é interessante: o nível de violência mostrado pelo filme, o qual não deve se diferenciar muito entre a versão atual, a “incompleta”, e a versão final, das salas de cinema.
Enquanto o filme Cidade de Deus mostrava uma glamourização da criminalidade dos traficantes cariocas, Tropa de Elite agora tenta glamourizar a ação violenta dos policiais de elite do BOPE, Rio de Janeiro. Só que Tropa de Elite ainda trás outras discussões além de mostrar a “humanização”, do porquê da ação violenta dos policiais de elite. E o mais preocupante é que as pessoas acreditam que somente à base da força, à base de sofrimento, sacrifício, teremos policiais realmente capacitados a tratar do banditismo carioca, como se não tivéssemos parcela de culpa por toda esta ação. Aliás, isto é praticamente a mensagem principal do filme: a nossa parcela de culpa na criminalidade que assola nosso país, seja diretamente, seja indiretamente, pelo descaso.
Eu fico fascinado com o nível de omissão das pessoas, em achar que o problema de favelas, moradores de ruas, sem terra, sem teto, sem gás, sem escola, sem etc., não fossem nossa responsabilidade. As pessoas não são cidadãs, são todos alheios à construção da nossa sociedade. “Ah, é culpa do pobre que não quis estudar!”, ou “Ah, não tenho nada a ver com isso!”, como se tudo em nossa sociedade surgisse sem qualquer causa, sem qualquer origem. Não é preciso ser doutor sem sociologia para ver que a nossa omissão cria todo este emaranhado de situações, ou você, “cidadão” inconsciente, acredita que o pobre fez opção por ocupar esta posição social? Que a sua omissão não influencia em nada disto? Somos todos responsáveis pela sociedade a qual vivemos.
Outro fato é que direitos humanos, os quais deveriam ser respeitados e garantidos a todos os cidadãos, vem cada vez mais a cair por terra. Parece que o correto mesmo é ninguém ter direitos, somente eu, que sou limpinho, rico e cheiroso. Agora o pobre, favelado, alienado, ignorante, não deve nem saber o que é direito, muito menos direitos humanos. Que isto tudo não passa é de uma tremenda hipocrisia (o policial pode violentar sem dó o pobre, mas o pobre não deve usufruir de qualquer direito; aliás, isto também foi discutido no filme), isso é evidente. No filme não se chega à conclusão se devemos ou não apoiar a ação violenta dos policiais do BOPE, face à violência evidente dos traficantes. Somos todos convidados a essa reflexão. Agora que esta situação pode se agravar ainda mais no futuro, poucos parecem pensar nisso.
Devemos levar em consideração qual tipo de sociedade estamos construindo, para mais tarde não nos arrependermos de nossas escolhas, como cidadãos com responsabilidades numa sociedade.